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segunda-feira, 31 de maio de 2010

"Tudo bem, filho, todo mundo faz isso"

Li o texto homônimo de Pierre Weil (que você encontra clicando aqui) e resolvi escrever a respeito do tema. O texto fala de um garoto que cresce vendo todos ao seu redor fazendo coisas erradas e às vezes, sendo ensinado a fazer o mesmo. Como 'consolo' escuta sempre: 'Tudo bem, filho/garoto, todo mundo faz isso.' Corrupção, trapaças... Se todos fazem, por que seria errado, afinal? Porém, quando Johnny (o garoto em questão) erra, seu pais se decepcionam; sua família o julga.

Li este texto na faculdade e no final, havia umas questões para debate. Uma delas me chamou atenção: 'O que você achou do julgamento dos pais para com o filho?' Eis a grande questão! O que é certo e o que é errado? Será que isso existe mesmo ou só aplicado quando convém ao grupo de pessoas ao qual o 'juiz' está inserido? Este é o Brasil! Brasil? Só? Não! Isso é um problema do mundo, visto que Pierre era francês.
Resolvi escrever sobre isso, pois estou em uma situação parecida. Na verdade, fui acusada de algo que nem sabia ser crime (verdade!). Mas, por mais que eu estivesse cometendo o crime (mesmo sem saber), o acusador apontou em mim falhas que muitos dos seus queridos e protegidos colegas seguem. Por que está errado comigo? Por que só quando eu faço?
A verdade é que, às vezes, somos condenados apenas por estender a mão a alguém ou para quem a estendemos. O preconceito aqui ainda é grande e, no ambiente que convivo, notório. Fui condenada também por isso. Estendi a mão para o alvo do preconceito, então o crime é MEU! Ele é excluído e deve permanecer excluído, se você tentar incluí-lo o crime é seu! Você é a próxima vítima do preconceito.
Depois (ou até mesmo antes), os 'caras' do meu ambiente diário querem defender políticas inclusivas. Quanta hipocrisia! Eles dizem que devemos entender a realidade dos alunos que iremos encarar durante o exercício do magistério, mas nem sequer tentam entender a nossa. Que mal tem tirar algumas dúvidas, sem compromisso, nos intervalos entre aulas? Vão me recriminar/incriminar por isso?

É o sistema que deve ser seguido. Veterano não pode ajudar calouro e aluno não pode ajudar professor. Essas são as regras básicas e 'ai de você' se tentar quebrá-las. Absurdo!



Esse texto é dedicado a você, ser humano, que sofre, que chora, mas que luta, porque você conhece o seu valor.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

The Guitar Man

Martha Medeiros - The Guitar Man
4 de dezembro de 2005


"Eu fui criada ouvindo Beatles, Janis Joplin, Rita Lee, Lou Reed e Tina Turner, era minha trilha sonora da infância, o que não impediu que uma aguazinha com açúcar entrasse no meu repertório. Aos onze anos de idade, minha música preferida era "The Guitar Man", de um grupo chamado Bread, que não chegou a entrar para a história, a não ser pra minha. Era uma balada bonita, que falava de um músico que estava sempre na estrada mexendo com as emoções daqueles com quem cruzava. " Who draws the crowd and plays so loud, baby, it's the guitar man..." e foi o que bastou para esse personagem virar meu príncipe encantado, muito mais do que aqueles loiros em cavalos brancos que entravam mudos e saíam calados dos contos de fada, sempre com ar de sonsos. Adoro bossa nova, sou louca por jazz, este ano curti com alegria Norah Jones, Jorge Drexler, John Pizzarelli, Madeleine Peyroux, mas nada se compara ao poder eletrizante de um guitarrista clássico, e estou falando logicamente da lenda que acabou de se apresentar no Brasil, Buddy Guy, que não tem nada de cool, e sim de incendiário. Nessas horas minha sofisticação vai pro ralo e eu quero mais é... é... sei lá, devo ter sido uma stripper em outra encarnação. Assisti ao espetáculo do rei do blues em Porto Alegre, onde ele transformou o teatro num estádio de futebol. Foi eletrizante, celebrou-se o lado mais quente da vida. Os integrantes da banda lidavam com os instrumentos como se eles fossem extensão do próprio corpo, e Buddy, do alto dos seus 69 anos, mostrou que idade é um conceito muito relativo e que tem muito garoto de vinte que precisa de umas liçõezinhas sobre o que é vigor. A maioria dos gêneros musicais provocam arrepios na alma e no coração, são absorvidos pelos ouvidos e se instalam dentro da gente de forma tranqüila e apaziguadora. O blues e o rock, primos-irmãos, não se assentam assim tão facilmente dentro de nós. Eles são assimilados através da pele também, nos reviram, impulsionam, provocam reações físicas mais nervosas, despertam em nós o tarado, o revolucionário, o selvagem, o herege. Já ia esquecendo: a stripper. Guitarra, bateria, piano, sax, gogó e veneno, tudo misturado, cativam pelo que têm de vibrante e sexy. Já virou clichê dizer que o rock é mais atitude do que música, e se formos ampliar isso para a vida fora do palco, podemos dizer que Elis Regina, por exemplo, foi uma grande roqueira, assim como o jornalista Paulo Francis, que também tinha uma postura muito rock'n'roll, mesmo considerando rock música de jeca e sendo o rei dos eruditos. O show de Buddy Guy foi, antes de tudo, um workshop: ele saiu do palco várias vezes, circulou por todos os ambientes, misturou-se à platéia, desarrumou-a, seduziu-a, quebrou o protocolo, divertiu e divertiu-se sem parar um único segundo de tocar - e ainda se deu ao luxo de homenagear John Lee Hooker, Jimi Hendrix e Eric Clapton, sem deixar de ser ele mesmo, dono e senhor do seu blues. Por que tudo isso faz bem? Porque o cotidiano anda muito monocórdico, as notícias andam muito repetitivas e a natureza pulsante da gente, pouco provocada. bom lembrar que podemos ser viscerais sem nos rendermos à vulgaridade, ser lascivos através do blues e suas guitarras, e ficarmos excitados sem perder a classe."
Martha Medeiros (Porto Alegre, 20 de agosto de 1961) é uma escritora e jornalista brasileira. Colunista do Jornal Zero Hora, de Porto Alegre, e de O Globo, do Rio de Janeiro.

Banda: Bread
Música: The Guitar Man
Vídeo: http://www.youtube.com/watch?v=CpOjQvADLG4
Letra: http://letras.terra.com.br/bread/5773/